BRASIL, Mulher

"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras."


Estava tudo milimetricamente calculado.
Ela dormiria com a roupa no corpo, pronta para sair, não perderia tempo. Atrás do armário já estava a mochila onde havia colocado seus pertences. Havia separado então, duas calças, três camisetas, três pares de meia, uma escova de dentes e no fundo falso preso por um fecho, colocara escondido todas as suas economias do mês.
Não poderia levar muita coisa.
Em seu coração inquieto, crescia o medo de abandonar parte de sua vida indo atrás de um sonho tão frágil. Era difícil tomar decisões tão importantes, constatou fitando seu rosto no espelho.
A imagem que viu tinha uma aparência ansiosa, dois olhos brilhantes, uma expressão perdida e a encarava insistentemente. Disfarçando um súbito desconforto, ajeitou um fio de cabelo imaginário e percebeu que seus dedos tremiam. Desviou o olhar enquanto mudava o rumo de seus pensamentos.
Precisava aparentar calma.As coisas haviam chegado ao limite.
Não fora só os desentendimentos em casa, nem o constante vazio de seus dias e tão pouco sua vida monótona que a levara a tomar aquela decisão.
Simplesmente ela sabia que chegara a hora de se libertar, de ver por si mesmo do que era feita, de extravasar sua personalidade, de saber quais eram seus limites, de descobrir se era capaz de andar sozinha.
E em pouco tempo ela saberia.
Uma olhada no relógio constatou que deveria dormir.
Entretanto não conseguiu evitar ficar pensando nas horas seguintes, no que a estaria esperando, em tudo que deixaria para trás, nas possíveis conseqüências de seus atos, nos tímidos passos que suplicavam por acerto. Em sua busca incessante por respostas que somente o tempo poderia formular.Ela pode acompanhar o tiquetaquear do relógio, as horas se indo, os minutos se aproximando. Embora estivesse com medo, foi com determinação que levantou naquela madrugada, silenciosamente pegou a mochila e deu uma última olhada no quarto. Sua coleção de ursinhos continuaria lá, sua imagem repetida em vários porta-retratos, seu computador e as estrelas do teto que brilhavam no escuro, também. No entanto, aquilo não bastou mais pra ela.
Fechou a porta e saiu.
Do lado de fora alguém já a esperava.
Lançou um meio sorriso em busca de compreensão e ganhou um abraço apertado pra dar força. Não seria algo fácil, mas já havia decidido não voltar enquanto não descobrisse a verdade.Naquela noite, dois vultos desaparecerem na escuridão e confundiram-se ao longe. Conforme ganhavam distância seus corações ficavam cada vez mais cheios de planos e sonhos, mas não falaram nada. Porque qualquer palavra dita estragaria o instante. Eles também tinham medo. Aquela sensação de que estavam adentrando em terreno desconhecido. Mas ela estava feliz, por tentar mudar as coisas, por finalmente ter reunido forças que nem sabia existirem e por ter agido com tamanha coragem.
Desta vez ela tinha certeza de que não olharia para trás. Seguiria seu caminho e voltaria sim, mas de cabeça erguida, segura e tendo plena consciência de seu lugar no mundo.