Um Lugar ao Sol


Dona Renata

Minha avó Sybylla me contava histórias sobre os mais variados assuntos. Meus primos geralmente nunca prestavam atenção, mas eu sempre ficava fascinada.
Lógico que ela teria ficado milionária se realmente houvesse tantos potes de ouro enterrados quanto ela dizia... E é claro que, até hoje eu não vi nenhuma fada dos dentes, aliás, deve ter o equivalente a uma dentadura inteira minha, no telhado da casa onde ela morava.
Desconfio seriamente de que ela só me contava essas histórias pra que eu parasse de bancar a cabeleireira com ela e deixasse de inventar meus penteados inovadores... Saudades daqueles tempos em que eu me empoleirava numa cadeira e insistia em pentear os parcos cabelos que ainda restavam na cabeça do meu avô...

Bons tempos aqueles... Mas não pretendo fugir do roteiro.
Tirando os contos da carochinha, eu aprendi muito e também compreendi que aquela era a madeira dela de transmitir conhecimento e de passar algumas coisas para aquele fiapo de gente.
A vida nem sempre segue um padrão geral. Os objetivos a serem alcançados variam muito conforme as convicções, idéias e sonhos de cada um.
Para quem pensa que, casar, ter um marido bonitão, viver rodeado de crianças pela casa e cães correndo pelo pátio é a imagem da pessoa mais feliz, ou que esse é o objetivo de todas as mulheres, está redondamente enganado. Nem sempre esse é o sinônimo de felicidade.
Aliás, felicidade pode significar uma única coisa, uma única pessoa, um só momento ou um simples conjunto de acontecimentos. Mas isso, não foi minha avó que me ensinou...

Dona Renata era uma professora de primário há alguns bons anos atrás. Dava aulas de inglês, alemão e português... Mas sua paixão, como não cansou de enfatizar, sempre foram as Artes. A criação de objetos, cartões, as pinturas, os detalhes, a mistura e a composição das cores.
Pude ver que Dona Renata amava o que fazia e que enquanto me contava suas histórias e lembrava de seus alunos com precisão de detalhes, ela sorria e seus olhos brilhavam...
Incrível como o tempo passava enquanto conversávamos... E a cada tarde que eu voltava lá, falava dos meus sonhos e tentava absorver ao máximo os conselhos que ela me dava. Fora isso, passávamos a tarde toda compartilhando nossa paixão por gatos, cartas, fotos e samambaias.
Aquela, sem dúvida era uma figura que cativava.
Suas experiências de vida me fascinavam tanto quanto um livro que tivesse uma história emocionante e que fosse repleto de detalhes e desenhos coloridos.

Desejei naquela hora, ter toda aquela capacidade de viver, ter momentos emocionantes e inesquecíveis pra lembrar e aquela memória e clareza de pensamento pra contar...
Pensando com meus botões, eu me perguntava por que aquela senhora tão amável e carismática não se casou e nem teve filhos.
Isso, ela me respondeu numa tarde em que eu fazia um boletim terrivelmente descompassado sobre minha vida de estudante.
Ela me disse algo assim: “__Quando se ama o que se faz e se tem a oportunidade de trabalhar fazendo o que se ama, a vida se torna tão completa e satisfatória que não há tempo e nem vontade de pensar em mais nada. Apenas se vive e se agradece a Deus por tamanha dádiva...”. Senti que naquela hora ela me passou não só um conselho, mas também uma experiência de vida.
Dona Renata teve grandes oportunidades, viajou pra vários paises, deu aulas em lugares diferentes, aprendeu muita coisa e conheceu muita gente.

Mesmo assim fiquei triste por ela, porque quis que ela tivesse mais do que a companhia de alguns gatos quando voltasse pra casa, desejei que ela tivesse família, filhos e uma penca de netos...
Naquela hora não me pareceu justo passar o resto da vida sozinha, vivendo só de boas lembranças...E enquanto insistia em dizer que não se arrependia de nada e que faria tudo novamente, eu não conseguia aceitar a ironia da vida.
Apesar de tudo, aprendi muito naquelas tardes, e embora nunca mais tenha visto a Dona Renata, nunca mais me esqueci dela.
Espero algum dia, ter essa riqueza de lembranças e variedade de historias pra passar adiante, para que mesmo depois de muito, muito tempo... Eu continue vivendo nos corações daqueles que um dia eu amei.

 

 


 

Uma homenagem a Sra Renata Tornquist, por quem tenho todo o carinho e respeito...
Com quem aprendi lições valiosas e histórias de um outro tempo, narradas com precisão de detalhes...

 



Escrito por Tici às 23h14
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