Um Lugar ao Sol


 

 

 

 

Essa história não é um conto de fadas. Antes fosse, mas se tratando de mim, alguém desastrada e deveras indecisa, só me restou esta narrativa melancólica pra contar. Uma vez que MELANCOLIA é uma forma romântica de ficar triste, acho que a essência da palavra se encaixa perfeitamente em tudo que se segue.

Se chamava Bernardo. Seu perfil no facebook me assustou um pouco na primeira vez que eu vi. Parecia ser do tipo rockeiro. Daqueles cabeludos que se vestem de preto e só escutam Heavy Metal.

Claro que me perguntei de onde eu poderia conhecê-lo, já que a fase da adolescência em que me julguei ser roqueira foi há muito, mas muito tempo atrás.
Mas eu lembrava o conceito.

Sempre fui uma pessoa educada. Então não aceitá-lo estaria fora de cogitação. Além disso, tínhamos vários amigos em comum, o que poderia significar que em algum momento da vida já havíamos esbarrado um no outro em algum canto da cidade e claro que eu não me lembraria, porque eu geralmente não guardo bem a fisionomia das pessoas.

Então aceitei o convite e o Bernardo ficou lá, à guisa de qualquer conversa ou sinal de aproximação.  E somente alguns dias depois, quando ele puxou assunto, foi quando começamos a nos falar.

O que logo me chamou atenção foi a sua inteligência. Sempre gostei de conversar com gente inteligente. E o Bernardo, diga-se de passagem, sabia conversar sobre tudo. Não essas conversas sem fundamento, ele tinha conteúdo.

Pra minha surpresa, ele também gostava de música clássica, trilhas sonoras, filmes antigos, literatura, arquitetura e História. Além disso, tinha uma banda, cantava e tocava violão.
 Era algo como um conjunto de todas as coisas que eu amava.

Trabalha como orientador educacional. Vivia rodeado de crianças e me contava muitas histórias sobre elas, algumas delas me faziam rir, outras nem tanto.
Claro que sei que não é fácil ser professor. As crianças não são fáceis de conviver hoje em dia, mas ao que parecia, ele tinha um jeito todo especial de lidar com elas.

Tivemos nossas longas conversas ao telefone.

Às vezes ele conseguia me deixar sem palavras. Logo eu, que sempre me orgulhei de falar aos montes, de repente não sabia responder a um simples elogio.
De vez em quando a linha do outro lado também ficava em silêncio, mas eu sabia que ele estava lá e que havia absorvido cada palavra.  Era um aprendizado. Ora se falava, ora se escutava, ora não se dizia absolutamente nada.

Às vezes o assunto se tornava engraçado. Falávamos desde Teorias de Conspiração, Livros, Series de Televisão até Problemas da Sociedade. Falei de alguns medos, de lembranças antigas, dos meus muitos sonhos e de algumas memórias da infância.

Ele me fazia rir. Fazia-me esperar.  Seja por uma simples mensagem ou uma ligação pra desejar Bom Dia ou Boa noite.


Ele se tornou meu amigo. Meu confidente. Meu pequeno sol particular. Falo sol porque mesmo em dias tristes era ele que me trazia alegria, me dava esperança, me fazia ver o lado positivo de cada coisa. E ele não se cansava, vivia dizendo que eu deveria acreditar em mim mesma, lutar pelos meus sonhos, seguir meu coração e me importar menos com o que os outros pensavam.

Acontece que  eu sempre fui meio reservada em tudo. Mas para ele, cantei e mostrei meus textos, histórias e memórias de outro tempo, que por medo de rejeição ou ser motivo de piada, guardei comigo mesma. E de algum modo, Bernardo me fez acreditar que eu era boa nisso também.
A verdade pura e simples é que ele acreditava em mim.

Ambos gostávamos de Pizza. Embora nunca tenhamos comido nenhuma Pizza juntos.

Ambos gostávamos de Filmes. Embora nunca tenhamos assistido a nenhum filme juntos.

Nunca lemos o mesmo livro, nem cantamos a mesma música, nem tínhamos as mesmas crenças.
Então não sei explicar. Bernardo e eu éramos tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo.

Como se houvessem dimensões paralelas, instantes que se congelavam, às vezes numa mistura de passado e presente. Mas nada do que fizéssemos mudaria ou nos garantiria o dia de amanhã. 

Todos deveriam saber que nunca fui boa em conjugar futuro. Aliás, eu deveria andar com um manual de instruções, nele deveriam estar especificados todos meus defeitos de fabricação. Quem sabe eu mesma tentaria decorá-lo porque ás vezes esqueço o modo como funciono.


Talvez tudo pudesse ter sido diferente.  Ele mesmo afirmava que todas as coisas se transformavam e evoluíam com o passar do tempo. Mas isso implicaria em mudanças e decisões que naquele momento nenhum de nós estávamos dispostos a tomar.

Ele sabia das coisas. Ele sabia o que queria. Ele me queria.

E o Bernardo bem que tentou me entender. Mas, sem sucesso.

Por eu continuar a ser uma incógnita pra mim mesma e por não saber o que quero, deixei o Bernardo me escapar por entre os dedos. Foi bem devagar. Como quem observa alguém se distanciando aos poucos, assistindo de longe a distância entre os corpos. 

 Provavelmente eu estragaria tudo de novo se houvesse outra oportunidade. Porque afinal de contas, sei que não estou pronta.  Nem sei se algum dia eu estarei.

 Mas continuo a seguir o que acredito, a esperar o inesperado, a buscar alguma coisa que nem mesmo sei de fato, se existe. Não falo de Deus, porque tenho certeza da existência Dele, mas falo de alguém, que seja o reflexo de tudo que eu busco ser. Alguém que eu não precise me explicar ou me fazer entender. Que me leia, me transcreva e me aceite exatamente do jeito que eu sou.
 
Quando conhecemos alguém, aprendemos, compartilhamos conhecimento, experiências e desde o primeiro momento, Bernardo me ensinou algumas lições.

Me mostrou de fato, que as aparências realmente não importavam. Num piscar de olhos o simples rockeiro se tornou alguém muito especial pra mim.  Sempre prestativo, sensível, carinhoso e querido como um amigo de longa data.

Me fez entender, que embora nos sintamos inúteis em alguns aspectos, podemos realmente fazer a diferença na vida de alguém. Talvez ele até pense que não escutei muitas das coisas que ele me disse, mas escutei.

Algumas delas me tiraram o sossego.
Outras mudaram algo dentro de mim.

E finalmente ele me provou que é possível sentir saudades de alguém, apesar do pouco ou muito tempo que a conhece.

E como ele me faz falta. Difícil aceitar que foi ele quem escolheu se afastar e se tornar o sol de outra pessoa. Porém, algumas escolhas são pra sempre.
Sei que não posso interferir nessa decisão, porque devo isso a ele e quero vê-lo feliz, mesmo que de longe.

E quem sabe um dia, quando tudo isso passar, nós nos avistaremos na rua, cruzaremos o mesmo caminho em algum café ou qualquer canto da cidade.
O tempo já terá cumprido o seu papel. E os dias de hoje, não serão mais do que uma mera lembrança. Um pequeno flash do passado.

Eu não precisarei falar, sei que ele vai lembrar. E assim como eu, vai sorrir.

Embora essa narrativa não se trate de um conto de fadas, foi essa a história quase platônica que Bernardo e eu protagonizamos juntos. Digo quase, porque houve uma tarde em que nossos olhos ficaram tão próximos quanto se podiam chegar.

Uma tarde singular.

Nosso único momento preso no tempo.


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 Este texto e esta música https://www.youtube.com/watch?v=6MPdz-kl6RM são especiais.

Em Homenagem a uma pessoa que aos poucos se tornou tão especial.
Alguém que sempre vou lembrar.

À uma amizade ou algo indefinido, que durou tempo suficiente pra se tornar único.

À ele meu carinho. Meu sorriso e Minha saudade.

 




Escrito por Tici às 19h51
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